Mulheres: um ato político



Em todo o contexto mundial de pandemia e conflitos sociais no geral, não podemos desassociar uma responsabilidade política envolvida nesses aspectos. Por todos os lados que olhamos há uma conjuntura política fazendo parte dos arredores sociais. Tudo é político. Não podemos pensar que política se faz a cada dois anos, mas sim política tem a ver com o desenvolvimento da vida em sociedade (MAAR, 2017).

Falar em sociedade traz alguns questionamentos sobre o modo de funcionamento das estruturas e dos seres sociais. Portanto, falar em mulheres na política implica entender o que se configura ser mulher na sociedade, juntamente com a esfera política que nos rodeia. De início, há dois modos de entender o enunciado “mulheres na política”: o primeiro sendo a participação dos sujeitos mulheres no fazer política, na estruturação de uma organização social; e o segundo como ser uma mulher na sociedade hoje é um ato político. Abordaremos ambos os tópicos mais detalhadamente.

A política em si surge em conjunto com a própria História, de maneira que se torna um resultado da “atividade dos próprios homens vivendo em sociedade” (MAAR, 2017). Ao analisarmos a citação anterior, podemos entender o termo “homens” como seres humanos ou mesmo como as pessoas do sexo masculino que por séculos afora fizeram parte quase que exclusivamente da política mundial, desde os tempos organizacionais de Esparta e Atenas, por exemplo, em que víamos mulheres e escravos sem poder de decisão política em sua própria sociedade.

Nesse contexto, a participação política das mulheres deu-se a partir dos movimentos feministas e sua busca por voz e lugar político na sociedade. No início dos registros das movimentações feministas em meados do século XIX, as mulheres estavam se organizando em diversas frentes para lutar por seu direito ao voto; pela ocupação de espaços públicos, e não mais somente o compilado “casa-marido-filhos” ao qual eram submetidas; e por direitos sociais igualitários, esta última uma luta constante ainda muito presente em nossos dias atuais.

Dessas movimentações podemos aprofundar em alguns nomes que foram essenciais para o momento que antecede as ideias do sufragismo e o direito ao voto feminino, mas que sem os feitos e conquistas dessas mulheres talvez não fosse capaz de construir uma história com a qual conhecemos hoje. Olympe de Gouges é um nome vindo da revolução francesa que se destaca por escrever a “Declaração dos Direitos das mulheres e das cidadãs”, um importante passo para reconhecimento da mulher coo um sujeito de importância social. Apesar de sabermos que a história continua sendo escrita por homens, seu trabalho não é tão conhecido, mas foi fundamental para a construção desse contexto feminista do século XIX.

Outro nome importantíssimo que aparece em nossas pesquisas é o de Mary Wollstonecraft, uma escritora inglesa que nos deixou valiosas palavras para pensar a revolução das mulheres a partir da educação, o direito ao ensino, os direitos sociais, a importância das mulheres ocuparem esse espaço educacional para mudar todas as dificuldades opressivas que o sujeito mulher estava (e ainda passa por isso) condicionado.

Entrando no contexto brasileiro, temos nomes como o de Nísia Floresta também que contribuíram de nosso país para o mundo, sendo uma das principais mulheres brasileiras do século XIX a escrever, formular, traduzir textos, e lutar pelo acesso das mulheres à educação (Prestes, 2020). Nesse período, estávamos inseridos em uma conjuntura com algumas principais lutas das mulheres que se destacam e compreendem o papel de sociedade que observamos hoje, entre elas estava em pauta o abolicionismo, a luta pelo direito à educação e (finalmente chegamos ao) sufragismo (Prestes, 2020).

O movimento Sufragista se iniciou nos anos finais do século XIX em Londres, na Inglaterra, tendo sua primeira demanda como o direito ao voto feminino (Pinto 2010). “As sufragetes, como ficaram conhecidas, promoveram grandes manifestações em Londres, foram presas várias vezes, fizeram greves de fome” (Pinto 2010, p.15 [grifos da autora]). No Brasil, o movimento ganhou força e se concretizou como a primeira onda feminista por meio da luta pelo volto, liderado pela bióloga Bertha Lutz que foi uma das fundadoras da Federação Brasileira pelo Progresso Feminino e conquistou diversos direitos políticos, inclusive o que levou ao voto feminino em 1932 (Pinto, 2010). Ainda a resistência contra o trabalho e a educação da mulher e sua participação em sindicatos e partidos vinham muitas vezes dos companheiros, essa condição colocada pelas mulheres de classes altas. Mas foram essas que se uniram em militância para mudar essa situação e conquistar direitos iguais e respeito igualitário no âmbito do trabalho.

Sem a luta dessas mulheres não teríamos o mínimo de direitos que temos hoje, e ainda menos possibilidades de continuar lutando pela igualdade de gênero e fim da violência contra a mulher. É nesse contexto que vemos então como que ser mulher hoje é um ato político.

Quando nos assumimos mulher, estamos afirmando para a sociedade que há sim uma diferença entre nós e os homens, mas que nossos direitos deveriam ser tratados em uma esfera política igualitária e que o respeito mínimo necessário é a consideração de mulher como um sujeito não passível de violência. A partir do momento que assumimos o discurso de igualdade e equidade de gênero, estamos fazendo política e buscando mudar estruturas sociais desiguais e violentas.

Ao fazer política estamos mudando as engrenagens masculinas estabelecidas há muitos séculos que nunca abriram espaço para o sujeito mulher enquanto sujeito de direitos. Ao nos inserirmos na luta feminista estamos nos afirmando como um sujeito de direitos, igualdade social e não vítimas de violência.

Referências

PINTO, Céli Regina J. (2010). Feminismo, história e poder. Revista de Sociologia e Política, 18 (36), (p. 15-23), jun. Disponível em: <http://ww.scielo.br/pdf/rsocp/v18n36/03.pdf>. Acesso em: 10 nov. 2020.

Prestes, Ana. (2020). O sufragismo e a conquista do direito ao voto no Brasil.

Curso online sobre Feminismo - Por que Lutamos?. Disponível em: < https://www.youtube.com/watch?v=0FJqqjMft20&list=PLZOhQw6rxxr6TQ1vWQ_nDxbIBm47ahlxk&index=4>. Acesso em: 10 nov. 2020.

MAAR, Wolfgang Leo. O que é política. São Paulo: Brasiliense, 2017.



Karen Poltronieri

Bibliotecária, Professora de Inglês e Feminista, mestranda com projeto em favor do fim da violência contra as mulheres.


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