UM OITO DE MARÇO PANDÊMICO

Em março de 2020 o mundo já estava alerta para a rápida disseminação da covid-19. No Brasil, estavam começando a confirmar casos da doença. No final do mês, após decretação de pandemia pela Organização Mundial de Saúde no dia 11 de março de 2020, o país já começou a implementar as restrições de circulação de pessoas e funcionamento do comércio.

Ao longo desse período de pandemia, isolamento social, quarentena, lockdown, as tarefas de cuidado aumentaram enormemente a demanda. Enfermeiras, médicas, cientistas, profissionais da limpeza, se viram obrigadas a dobrarem, triplicarem sua jornada de trabalho – tanto fora quanto dentro de casa.

Segundo o relatório da CEPAL – Comisión Económica para América Latina y el Caribe, publicado em fevereiro de 2021, sobre La autonomía económica de las mujeres en la recuperación sostenible y con igualdad, estima-se que 73,2% dos profissionais de saúde são mulheres.

O relatório traz um gráfico muito importante para compreensão do aumento da desigualdade de gênero decorrente da crise sanitária que se perpetua:


Com escolas e creches fechadas, as mulheres com filhos ou parentes na idade escolar, se viram na missão de também ensinar suas crianças. Mais uma vez, o trabalho com a prole acaba sendo delegado, majoritariamente, às mulheres da família.

Como ressalta Silvia Federici em entrevista recente publicada no The New York Times, o trabalho doméstico, de reprodução da vida, não pode mais ser invisibilizado. Esse trabalho tem que ser nomeado como tal e devidamente remunerado, para que também, eventualmente, se possa redescobrir o que é amor.

O já citado relatório da CEPAL aponta que relatório aponta que em 2020, 118 milhões de mulheres estavam em situação de pobreza, totalizando 23 milhões a mais do que no ano de 2019. E estima-se uma sobrecarga de trabalho doméstico três vezes maior que a de homens, além do crescente desemprego.

O aumento dos índices de violência doméstica, observados a nível mundial, também é outra consequência preocupante verificada no isolamento social. Agrava a situação o fato de que a convivência estrita muitas vezes dificulta a identificação da violência e a busca por auxílio.

Concluir que o lar, o ambiente doméstico, muitas vezes não é um espaço seguro para mulheres, independente de raça, classe e orientação sexual, é um pensamento de uma gravidade sem precedentes – ainda mais em um contexto social que obriga a permanência em casa.

Assim, nesse oito de março pandêmico, pensar no dia internacional das mulheres é reconhecer a Dororidade compartilhada, conforme nos ensina Vilma Piedade. É ser solidária na dor de nossas semelhantes. É internalizar que nossa emancipação será coletiva.


Referências

PIEDADE, Vilma. Dororidade. São Paulo: Editora Nós, 2017.

https://agenciabrasil.ebc.com.br/radioagencia-nacional/economia/audio/2021-02/pandemia-afeta-mercado-de-trabalho-para-mulheres-da-america-latina

https://elefanteeditora.com.br/a-quarentena-mostrou-como-a-economia-explora-as-mulheres-silvia-federici-ja-sabia/?ct=t%28DAREDACAO_breno%2311_Tira%2323_Retratos_20201025_COPY_%29&mc_cid=9ef9ecab18&mc_eid=f690eb00bc

https://www.oxfam.org.br/blog/6-razoes-pelas-quais-o-impacto-do-coronavirus-sobre-as-mulheres-e-maior/

https://forumseguranca.org.br/wp-content/uploads/2018/05/violencia-domestica-covid-19-ed03-v2.pdf



Cristiane Duarte

Advogada feminista, atuante na área de direito de família e na defesa dos direitos das mulheres.

56 visualizações0 comentário