Você já leu uma mulher hoje?


Estar ativamente ligado ao movimento feminista nem sempre é uma tarefa fácil. Na verdade em sua maioria é bem complicado. Vemos a despeito de violência e desigualdade em níveis extremos e em todo o lugar. Diversos aspectos da vida cotidiana estão ligados a pensar o papel da mulher e sua colocação como um sujeito perante o movimento feminista. Quando olhamos para o universo dos livros não é diferente. Ao nos deparamos com uma atividade de prazer que a leitura é para muitas pessoas não desligamos o nosso termômetro do feminismo. Uma vez inseridos nessa conjuntura passamos a questionar o tempo todo, e isso é extremamente necessário.

Como bibliotecária e leitora, olho para esse mundo dos livros também de maneira questionadora, não só em relação às narrativas, mas igualmente para quem escreveu a obra. Assim como em diversos âmbitos de nossa sociedade, a desigualdade da mulher em relação ao homem é escancaradamente maior, e no meio literário infelizmente não é diferente. É só pensar em grandes nomes clássicos de autores homens que são exaltados na História; quantas autoras mulheres estão na lista da Fuvest?; ou ainda quantas autoras mulheres estão no seu repertório literário?

O silenciamento das vozes das escritoras femininas é mais uma violência de gênero perpetuada anos a fio, a começar por muitas se utilizarem de pseudônimos ao longo da história ou até casos em que o marido ou alguma figura masculina assumiu o nome de autor para chegar ao ato da publicação. Para trazer um exemplo, em mais de 120 anos da criação da Academia Brasileira de Letras, apenas 8 cadeiras foram destinadas à mulheres tendo um todo de 253 membros até hoje (LORD, 2018).

A ascensão do feminismo nos contextos sociais atuais nos traz essas discussões e questionamentos e um movimento de mudar essa realidade, ainda que seja aos poucos não podemos deixar de lutar por esses espaços e criar visibilidade para autoras mulheres e mais ainda autoras negras (é necessário demarcar esse ponto mas não poderei ultrapassar os limites do meu lugar de fala nesse momento).

Neste sentido, diversas iniciativas estão sendo criadas para dar voz às autoras em um movimento de justiça pelas desigualdades literárias. Para citar algumas temos: a criação em 2015 do clube de leitura Leia Mulheres presente em diversos países; também o projeto #KDMulheres com o objetivo de chamar a atenção para a falta de visibilidade das mulheres no campo da literatura (RATTI; AZZELLINI, 2017).

A movimentação para a mudança de uma realidade desigual é muito importante, mas não acontece sozinha e muito menos sem os questionamentos diários de nossa vida comezinha. É inegável a inferioridade e desigualdade feminina na conjuntura em que vivemos, por isso a cada momento de desconstrução é uma vitória e um passo para uma sociedade menos violenta contra a mulher.

Deixo aqui um incentivo para que vocês leiam mais, leiam mais mulheres e questionem seu entorno social sobre o papel de mulher que nos é colocado. E uma dica bacana para os leitores: há um teste chamado “teste de Bechdel”, cunhado pela autora Alison Bechdel propõe analisar gêneros ficcionais em se existem pelo menos duas personagens femininas na narrativa; se essas personagens conversam entre si; e se esses diálogos falam algo a mais do que conversar sobre homens (MAGALDI; MACHADO, 2016). Aplique esse teste e confira quantos livros, filmes e outros gêneros culturais passam por ele, é de se surpreender!


Referências

LORD, Lúcio José Dutra. Desigualdade de gênero e literatura brasileira: um olhar a partir da Sociologia. Revista Entrelaces, v. 1, n. 14, out-dez, 2018.

MAGALDI, Carolina Alves. MACHADO, Carla Silva. Os testes que tratam da representatividade de gênero no cinema e na literatura: uma proposta didática para pensar o feminino nas narrativas. Textura, v. 18 n.36, jan-abr, 2016.

RATTI, Claudia.; AZZELLINI, Érica. Questão de gênero na literatura. 2017. Disponível em: < https://www.huffpostbrasil.com/claudia-ratti/questao-de-genero-na-literatura_b_7787974.html>. Acesso em: 20 abr 2020.






Karen Poltronieri



Bibliotecária, Professora de Inglês e Feminista, mestranda com projeto em favor do fim da violência contra as mulheres.

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